Trabalhadores dos Correios devem lutar contra as chibatadas da ECT

É como dizer: as chibatas, o SAP, a SID e todos os sistemas de controle, causam temor, são ferramentas para açoitar e punir os trabalhadores e prol de algum interesse.

 
 
foto: Marinheiros revoltosos (1910). João Cândido (centro).

Independente da área de atuação, mas dentro da relação de trabalho, entre trabalhador e patrão, a agressão física - herança da escravidão - foi substituída por agressões psicológicas. O assédio moral deixa tantas cicatrizes como o couro das chibatas. Ao criar um ambiente de trabalho hostil, o patrão ou chefia, expõe o trabalhador as situações constrangedoras e humilhantes no exercício de sua função. A vitima não consegue compreender o que está ocorrendo, se sente culpada, inútil, sem valor e com um forte sentimento de vingança.   

No Brasil, alguns relatos que retratam assédio moral e suas consequências, são contatos em livros de História, e, podem ser reinterpretados em nosso tempo, sem ser anacrônicos, pois o que está exposto é a relação de poder, utilizada de maneira a subjulgar o outro. É como dizer: \"as chibatas, o SAP, a SID e todos os sistemas de controle, causam temor, são ferramentas para açoitar e punir os trabalhadores e prol de algum interesse\". 

Uma dessas histórias ocorreu no Rio de Janeiro, no dia 22 de novembro de 1910.  Cerca de 2.400 marinheiros brasileiros rebelaram-se contra a aplicação de castigos físicos. Conhecida como a Revolta da Chibata. O ato foi liderado pelo marinheiro João Cândido Felisberto. O uso de castigos físicos era semelhante aos maus-tratos da escravidão, abolida no país desde 1888. 

A punição aplicada ao um marinheiro precipitou o início da revolta. Por ter trazido cachaça a bordo e ferido com uma navalha o cabo que o delatou, o marinheiro foi punido com duzentos e cinquenta chibatadas. O exagero na punição, considerada desumana, provocou uma indignação da tripulação. 

Contribuiu também a insatisfação dos marinheiros com os baixos soldos (remuneração por serviços militares), com a má alimentação e, principalmente, juntando aos degradantes castigos corporais, fez crescer o clima de tensão. Marinheiro de primeira classe João Cândido Felisberto emitiu um ultimato ao governo. \"Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira\", disse.

Candido colocou a Capital Federal sob ameaça da esquadra que liderava. O governo respondeu que não confabulava com revoltosos. João Cândido então ordenou tiros de canhão sobre o Palácio do Catete, sede do Poder Executivo, e sobre a Câmara dos Deputados.

Quatro dias depois do motim, o governo do presidente Marechal Hermes da Fonseca declarou aceitar as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos. 

No entanto, surgiram boatos, de fontes incertas, de que estaria sendo planejada uma \"segunda revolta\". No Congresso, parlamentares levantaram a possibilidade de esta \"segunda revolta\" ter sido encomendada, ou no mínimo fomentada pelo Governo Federal (Presidente, Marinha, Exército e simpatizantes no Congresso).

O Governo era o maior beneficiado com o estado de sítio, que não somente lhe permitiu excluir 2.000 marinheiros (eram 2379 os revoltados) e matar um número incerto, mas estimado em duas centenas de marinheiros, como também afastar os adversários políticos, que ficaram a favor da anistia dos marinheiros rebeldes.

De trezentos revoltosos, sobreviveram pouco mais de uma centena. Vários foram detidos nos calabouços da antiga Fortaleza de São José da Ilha das Cobras.

João Cândido também foi preso e expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os fuzileiros rebeldes. O Almirante Negro, como foi chamado pela imprensa, sobreviveu a detenção na ilha das Cobras. Foi internado no Hospital dos Alienados em abril de 1911. Dois anos mais tarde, em 1 de dezembro de 1912, ele e nove companheiros foram julgados e absolvidos das acusações. 

João Cândido morreu no Rio de Janeiro no dia 6 de dezembro de 1969. 

A revolta dos marinheiros é exemplo de que ninguém deve aceitar permanecer em situação de assédio moral. Caso o trabalhador esteja passando por essa situação deve entrar em contato imediatamente com os diretores do Sintect/SC. Neste dia 13 de maio, queremos reforçar a importância da luta contra todo e qualquer tipo de agressão ao trabalhador. 

Vídeos documentário produzido pela Globo News
Especial sobre a Revolta da Chibatas.





Notas

↑ Revolta da Chibata
↑ a b c d e DE ANGELO, Vitor Amorim. Revolta da Chibata - Movimento defendeu mudanças na Marinha, UOL Educação, acessado 28 jan 2012.
↑ Revolta da Chibata, Suapesquisa.com .
↑ Lula sanciona anistia a líder da Revolta da Chibata, O Globo Online, 23/07/2008
↑ Memórias da Chibata, de Marcos Manhães Marins.
Bibliografia

CÂNDIDO, JOÃO. Memórias de um Marinheiro. Rio de Janeiro: Gazeta de Notícias, 1913.
MOREL, EDMAR. A Revolta da Chibata. 1 ed. Rio de Janeiro: Pongetti, 1959.
CÂNDIDO, JOÃO. Depoimento para o Museu da Imagem e do Som, 1968.. in TRINDADE, MARÍLIA. João Cândido, o Almirante Negro. Rio de Janeiro: MIS, 1999.
MAESTRI, Mário. 1910: a revolta dos Marinheiros. Uma saga negra. 3 ed. São Paulo: Global, 1982.
SILVA, M. A. da. Contra a Chibata: marinheiros brasileiros em 1910. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 11-12. (Coleção Tudo é História)
MARTINS, Hélio Leôncio. A revolta dos Marinheiros - 1910 Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1985.
MAESTRI, Mário. Cisnes negros: 1910: a revolta dos marinheiros contra a chibata. São Paulo: Moderna, 1998.
ROLAND, Maria Inês. A Revolta da Chibata. São Paulo: Editora Saraiva, 2000. ISBN 8502030957 (compilação dos anteriores)
NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. Cidadania, cor e disciplina na revolta dos marinheiros de 1910. Rio de Janeiro: Mauad, 2008.
CHEUICHE, Alcy. João Cândido, o Almirante Negro. Porto Alegre: L&PM, 2010. (livro de ficção)
Atlas histórico IstoÉ/Brasil 500 anos. São Paulo: Editora Três, 2000. p. 98. (resumo)

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